sábado, 2 de outubro de 2010

Cracolândia agora é em todo Brasil

Engana-se quem pensa que a ‘cracolândia’ – como ficaram conhecidas as regiões dominadas por usuários de ‘crack’ – é exclusividade de grandes centros, como o bairro paulistano de Santa Ifigênia. A ‘boca do lixo’ também se desenvolve em cidades do interior, como em Campinas, onde as imediações da antiga rodoviária concentram dezenas de usuários da droga todos os dias. Em Itapira, infelizmente, este quadro não é diferente. Em trechos da Avenida São Paulo e até mesmo na Praça Bernardino de Campos, região central do município, a presença de indivíduos que fazem uso de crack tornou-se comum, a ponto de passar, muitas vezes, despercebidos pela sociedade.
O promotor André Luiz Brandão revelou que no município, em algumas intervenções em pontos de uso de drogas, crianças com idade entre nove e onze anos foram encontradas consumindo a droga. Segundo ele, essas crianças acabam por ‘trabalhar’ para o tráfico, uma vez que não conseguem sustentar o vício. “Para garantir a droga, eles acabam trabalhando para os traficantes como ‘vapores’ (como são conhecidos os pequenos vendedores de droga), entregando, buscando e armazenando as drogas”.
Mas os usuários de crack não se resumem mais apenas a pessoas humildes e de baixa renda. A droga tem penetrado cada vez mais nas classes média e alta da sociedade, que antes costumava envolver-se comumente com drogas sintéticas, como o ecstasy. Uma prova recente desse quadro foi observada há cerca de dois meses, no Espírito Santo, quando um estudante fez refém a própria mãe por conta do vício, em um amplo apartamento, de frente para o mar, em um bairro nobre de Vitória.
Garoto fuma crack na latinha em rua de Brasília – DF (Foto: Agência Brasil)
O crack surgiu no início da década de oitenta, resultante de uma mistura entre cocaína, bicarbonato de sódio ou amônia e água destilada. Dividido em pequenos grãos, popularmente chamados de ‘pedras’, é fumado em cachimbos ou, quase sempre, em latas de alumínio. Seu efeito possui grande potencialidade sobre o sistema nervoso central, acelerando os batimentos cardíacos, aumento da pressão arterial, dilatação das pupilas, suor intenso, excitação e tremores.
Psicologicamente pode causar euforia, sensação de poder e invencibilidade, aumento da auto-estima e maior aptidão física e mental. Em casos não raros, o uso do crack está ligado diretamente a mortes de usuários por acidente vascular cerebral. Freqüentemente o usuário comete pequenos delitos, a fim de conseguir dinheiro para obter a droga, o problema maior, no entanto, são os efeitos causados pela abstinência, muitas vezes causando desespero no dependente, situações conhecidas como ‘nóia’ ou ‘fissura’. A droga é relativamente cara: uma pequena porção custa em média R$ 10, e o viciado pode fazer qualquer coisa para conseguir dinheiro e manter o vício.
Uma pesquisa recente do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), apresentado durante a dissertação de mestrado da farmacêutica Tharcila Viana Chaves, aponta que, além de todos os feitos citados, causados pela dependência e pela abstinência da droga, o usuário ainda desenvolve outro tipo de fissura, causada pela própria ação da droga.
Segundo ela, assim que o usuário de crack dá a primeira tragada, uma compulsão imediata pelo consumo é desencadeada no organismo. Outros dados apresentados no ‘I Fórum Regional do Crack da Segunda Coordenadoria de Assistência Social’ revelaram que os usuários de crack, em sua grande maioria, têm entre 13 e 15 anos. Além disso, cerca de 50% deles se tornaram dependentes da droga por causa conflitos familiares, violência doméstica e trabalho infantil. O evento, realizado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro em agosto reuniu profissionais das áreas de saúde, segurança, educação, esporte e lazer, e discutiu o combate ao consumo crescente do crack na capital carioca.
Droga é vendida em pequenos fragmentos: efeitos são devastadores (Foto: Agência Brasil)
A ‘cracolândia itapirense’ confirma a triste realidade. Em geral, menores com idade escolar estão presentes nos pontos críticos onde a droga é consumida, não só no período noturno, mas também à luz do dia.
A sociedade reclama, a população denuncia, a polícia e o Ministério Público agem, mas o quadro não costuma mudar. Brandão explicou que um dos fatores para a baixa eficácia das ações é o fato de que as leis não prevêem medidas detentivas aos usuários de drogas. “Eles (os usuários) não podem ser detidos quando não existe ato infracional, como roubo ou furto, e logo depois da autuação são apresentados aos responsáveis e liberados em seguida”, disse o promotor. Ele conta que o Conselho Tutelar é notificado e uma equipe do próprio fórum, com assistente social e psicólogo, assume o caso, encaminhando o viciado para atendimento em órgãos como o CAPS – Centro de Atenção Psicossocial. “Somente em casos onde o menor age com agressividade e violência ou comete algum crime é que podemos encaminhá-lo para internação em instituições, como a ‘Fundação Casa’”, ressaltou Brandão, referindo-se à antiga FEBEM. Segundo ele, em cem por cento dos casos de uso de drogas por menores, a primeira pista é o abandono da escola, seguido pelos pequenos crimes.

NEM SEMPRE O CRACK É O FIM DA LINHA

Contrariando o que a sociedade costuma dizer quando um indivíduo chega ao consumo de crack, o Gazeta convidou dois ex-usuários de drogas, recuperados pela Casa Vida, entidade assistencial do município que atende dependentes químicos. Atendendo à solicitação com bastante humildade e claro, com muito orgulho, certos de servirem de exemplo de que o usuário de drogas – incluindo aqueles que chegam ao crack, considerado o fim da linha – podem sim se recuperar, eles prestaram depoimento e contaram um pouco de suas histórias com as drogas.
Júnior, atualmente com 30 anos, conta que começou a usar drogas aos quatorze anos de idade, em festinhas. Segundo ele, a porta de entrada para sua dependência química foi o álcool, passando em seguida a fumar maconha. “Era um menino como qualquer outro, uma criança com muitos sonhos, e o maior deles era ser jogador de futebol. Eu estudava, brincava, e de repente passei a andar com pessoas que já eram usuárias de drogas, e fui me afastando dos verdadeiros amigos”, contou Júnior, visivelmente emocionado. Após a maconha, Júnior passou a usar cocaína, perdeu o emprego e, para sustentar seu próprio vício, passou a roubar objetos de sua própria casa para vender ou trocar com drogas. “Em pouco tempo eu já estava no crack, que acabou me levando para a prisão. Lá eu pedia a Deus que me livrasse daquela situação, o que logo aconteceu, mas ao ganhar a liberdade acabei ficando pior, me afundando de vez no crack”, lembra.
Junior diz que pediu ajuda a uma irmã, que conseguiu uma vaga na Casa Vida. Segundo ele, o coordenador da entidade o recebeu, questionando se ele estava mesmo disposto a mudar de vida. Diante da resposta afirmativa, Júnior iniciou o tratamento, que inclui nove meses vivendo dentro das dependências da entidade. “Passei por muitas dificuldades, mas conheci um estudo chamado ‘os doze passos cristãos’ e o programa FTI – Felicidade do Trabalho Interior, me apegando também ao estudo bíblico”.
Hoje, o ex-dependente, ainda em recuperação, trabalha em uma empresa da cidade, é casado há um ano, assumiu uma posição na diretoria da Casa Vida e é coordenador do Grupo de Apoio ‘Amor Exigente’. “Faz mais de dois anos que estou ‘limpo’ (sem drogas). Agradeço a Deus e me considero uma pessoa feliz ao lado de minha família”, observa. Júnior diz que espera ajudar, com seu depoimento, pessoas que ainda usam drogas e salienta que a força de vontade é o único caminho para deixar o vício. “É possível sim abandonar as drogas, só depende de você, de sua vontade de querer parar. Força, fé e alegria, só por hoje”, discursa.
Outro recuperado pela Casa Vida é Marcelo, de 35 anos, que começou a usar drogas aos doze anos para conseguir ser aceito pela turma. Aos quinze chegou a entrar em coma devido ao consumo excessivo de álcool, sendo preso, aos dezoito, por se envolver em brigas. “Quando tinha vinte e cinco anos eu briguei com meu pai, chegando a agredi-lo e machucá-lo. Fui perdendo tudo, família, dignidade, respeito, caráter, e cheguei a morar nas ruas usando todo tipo de droga”.
Segundo ele, quando estava na rua, uma pessoa perguntou se ele precisava de ajuda, mas ele disse que não, pois achava que não precisava de ninguém para se livrar das drogas. “Aos poucos fui percebendo que nunca sairia daquela situação sozinho, e então fui internado na Casa Vida, onde passei pelos mesmos nove meses que todos residentes passam e enfrentei muitas dificuldades”, conta Marcelo, também bastante comovido. Ele diz que com ajuda de Deus e de seus companheiros conseguiu superar a dependência química, estando longe das drogas à cinco anos, constituiu família com esposa e filho. “O primeiro passo, e mais importante, é a própria pessoa querer. Espero ter contribuído de alguma forma contando um pouco da minha vida, para que outros dependentes também consigam se livrar das drogas”, finalizou Marcelo. Em um ponto os dois ex-dependentes concordam: todos que conseguem se livrar das drogas viverão para sempre em recuperação.
  • Publicado originalmente no Jornal ‘A Gazeta Itapirense’, edição de sábado, 

Um comentário:

  1. LEGAL ESSE TRABALHO O Q FALTA É A SOCIEDADE AGIR DE FORMA IMPLACAVEL POIS A PREVENÇÃO É A MELHOR FORMA DE COMBATER!!

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