domingo, 26 de setembro de 2010

Afinal, o que é co-dependência?



Tina Zampieri esclarece aspectos da codependência



Maria Aparecida Junqueira Zampieri, conhecida como Dra. Tina, é autora do livro Codependência – O transtorno e a intervenção em rede. Acompanhe trechos da entrevista com a autora que revela detalhes da codependência.







O que é codependência? 




É possível olhar a codependência observando características assumidas por uma pessoa, mas só faz sentido essa expressão dentro de relacionamentos, na família, no trabalho, instituições, na sociedade. Trata-se de um estilo, um padrão de relacionamentos, por isso envolve no mínimo duas pessoas. Podemos dizer que a codependência é uma condição emocional, comportamental e relacional que se desenvolve desce a infância em ambientes opressivos e fechados à expressão de sentimentos e à conversa franca sobre problemas pessoais e interpessoais. É uma herança que vai se constituindo numa trama de geração em geração, embora não se saiba se existe de fato uma propensão genética, como em outros transtornos. Filhos de pais sem espaço emocional para eles, que no ambiente hostil vão aprendendo sua insignificância, a envergonhar-se de seus sentimentos, carências e necessidades e vão descobrindo que não podem ser amados, mas podem ser úteis. Sem abertura para expressar suas necessidades de afeto, auto-estima, segurança, confiança e sem liberdade para brincar, sujeitas continuamente ao abuso psicológico e muitas vezes físico e/ou sexual, se sentem abandonados por seus cuidadores. Não raro, muito cedo funcionam como pais de seus pais, o que lhe dá um lugar (superior) perante os outros. Na vivência de suas carências, da vergonha (inferioridade) e da responsabilidade inadequadamente imposta dentro do relacionamento familiar (superioridade), a criança aprende a esconder seus sentimentos até dela mesma. Pode se estruturar oscilando entre sentimentos contraditórios de inferioridade e superioridade, de raiva não expressada e cuidados, de uma necessidade de existir que vai tomando forma, característica principal da codependência, de uma tendência obsessivo-compulsiva de dar amor/altruísmo ao outro para merecer/receber amor/reconhecimento, e assim evitar sentimentos de menos-valia, mesmo que a pessoa não tenha consciência ou não fale isso claramente. Cresce se sentindo mais à vontade perto de pessoas “fracas” e que “precisam” dela, dependentes químicos ou não, fazendo disso o sentido de sua existência. Trabalha muito, é poderosa, tem comportamentos extremos e compulsivos “de ajuda” para sentir que existe, que está no controle.  expressão codependência já mudou seu significado com o tempo. Antes, se dizia que codependentes eram as esposas de alcoólicos. Mas hoje já se entende que a codependência abrange muito mais que isso. Em meu livro “Codependencia: o transtorno e a intervenção em rede” proponho que ela seja entendida como uma doença e que precisa ser tratada porque é grave e leva as pessoas a agir dentro da família, no trabalho e até mesmo no lazer de um modo que nem a pessoa nem quem convive com ela se sintam muito bem. Essa doença costuma durar por toda a vida se não for tratada e por isso proponho que seja reconhecida como um transtorno de personalidade, porque a própria pessoa sofre e também sofremos outros ao seu redor. Pode acontecer com homens e com mulheres. Sempre atinge várias pessoas, que ficam emboladas nessa confusão. Sem querer o codependente controla os outros e acaba assumindo a maior parte das responsabilidades da casa e os outros ficam folgados, acabam se acostumando a deixar tudo nas suas costas. Ficam dependentes dele. No relacionamento conjugal um trabalha demais e o outro de menos; o relacionamento afetivo não é muito claro e há muito rancor, não se conversa com liberdade ainda que as pessoas briguem e “atiram pedras” uns nos outros. O relacionamento sexual é cheio de negócios implícitos, um cede para acalmar o outro, é meio na base da troca, mesmo que isso não seja claramente conversado, cada um “já sabe” como é. Muitas vezes o codependente se sente estuprado, explorado pelo outro, desrespeitado. Mas não consegue conversar sobre isso. Ou se cala ou grita. Como as conversas não são claras (porque viram briga) cada um pensa que já sabe o que esperar do outro. Mas na verdade parece que está sempre prestes a explodir, qualquer coisa machuca tanto que os rancores vão crescendo, mesmo que a pessoa não perceba isso e pense que sempre leva tudo sozinha. Além disso é tão difícil sair desse relacionamento – e quando consegue sair, acaba caindo em outro do mesmo estilo, parece muito azar: sempre acaba se envolvendo com pessoas complicadas e instáveis. Mesmo detestando essa palavra a pessoa se sente muito vítima da situação. E ainda que lhe pareça absurdo, quem convive com ela (ou ele) também se sente vítima, mas para ela é a cruz de sua vida. Há uma grande dificuldade em se reconhecer que cada um é um tanto responsável por essa situação. Mesmo que não dê para sair sozinho disso. Além disso, a pessoa é tão tolerante...até consegue berrar: basta! Mas não consegue se fazer respeitar e dali a pouco tudo acontece novamente, fica eternamente dando uma “última chance” ao outro, mesmo que esteja muito magoada, traída, desrespeitada, lesada. É bem difícil a própria pessoa perceber, mas ela também tem dificuldades em não invadir o limite do outro. Avança, invade, vai no trabalho do outro, tenta controlá-lo...mesmo que seja para o bem dele. E guarda muito rancor, o mundo está sempre magoando. Seu humor varia muito, hora está no céu, hora no inferno. Hora se sente um herói, ora tão porcaria que até ele mesmo sente dó, mesmo que isso dê raiva. E como é duro quando alguém critica; ninguém entende que tudo que faz é pelo bem dos outros. Pensar em si mesmo é sempre a última coisa. Geralmente faz primeiro pelos outros, mesmo passando por cima de suas próprias necessidades. Mas também em geral ninguém reconhece.


A codependencia só se instala em indivíduos que convivem com o uso de drogas ou alcool ou ocorre em outras situações? 




A codependência é um transtorno de personalidade que se constrói progressivamente desde a infância e vai se instalando ao longo da vida, mesmo em famílias onde há abuso de drogas ou álcool. É uma doença que não se constrói com uma pessoa sozinha, por isso, quando faço um diagnóstico de codependência, levo em conta que deve haver pessoas dependentes (de drogas ou a seco) no mesmo ambiente. É como peças de um quebra-cabeça em que cada um precisa do outro para alimentar sua doença. Acontece isso na família, no ambiente profissional. Acho até que poderia dizer que sempre existe a droga na codependência. É que existe muito tipo de droga além daquelas ilícitas e o álcool. Naquele livro descrevo manifestações da codependência em muitas situações diferentes, em situações de trabalho, mesmo na relação político-institucional, em que um estilo de governo codependente estimula o povo a não crescer, a não ficar independente, emancipado. Dá migalhas e fica com o povo na sua mão; isso acontece desde que o mundo é mundo e continua sendo explorado. Mas é um governo doentio esse que estimula o vício da “droga” em que a pessoa precisa ir buscar avidamente a cesta básica e não sai dessa armadilha, fica folgada, aprende a “ganhar”, encosta...não vê que poderia lutar por ser auto-suficiente. Fica dependente. É claro que existe a necessidade de socorro, mas em emergências. Precisa abrir frente de trabalho e não de bolsa eterna. Trabalhar faz a pessoa se sentir gente, “ganhar” faz se sentir valendo menos. Mas isso acontece e se mantém porque vai ficando conveniente para ambas as partes, que são complementares como as pecinhas do quebra-cabeça. Um bonzinho porque ajuda, o outro grato porque vê que sempre vai precisar. Mas olhando bem, ambos dependem um do outro e a conveniência perpetua esse comportamento. É obvio que uma mãe ou um pai codependente não sabe como seu comportamento com um filho drogado estimula-o a continuar drogado. Por isso todos precisam se tratar, mas para isso é preciso haver a consciência de que existe sim essa doença e todas as peças do quebra-cabeça têm que ser tratadas. Ou pelo menos a maioria, senão tudo tende a voltar a ser como antes. Sempre “amarrados”. Todos sofrem.



A codependência é conhecida com o transtorno do controle. Como ele ocorre? 

Essa é uma característica indispensável para o perfil codependente. O controle é difícil de ser percebido pela própria pessoa, embora seja bem fácil de ser percebido pelos outros. A própria pessoa pensa que tudo o que está fazendo é para ajudar os outros. Mas não se dá conta de que se o outro fizer de outro jeito ela se irrita, sente de alguma forma que o outro não está a deixandoela ajudar e muitas vezes até se descontrola. Mas no fundo é difícil quando o outro está “escapando” de suas mãos. É mais fácil a pessoa acreditar que ela fez tudo para o outro e quando esse não precisava a jogou fora como um trapo. A codependência é a doença de alguém que depende que outras pessoas que dependam dela, que necessitem sua ajuda. Enquanto no amor saudável, cada um cuida do outro quando necessário e permite e estimula o desenvolvimento e a realização pessoal própria e do outro, na relação de codependência, um vive atrelado e interferindo negativamente na evolução do outro. A ordem implícita é: fique comigo, não cresça, senão eu posso te perder. Como o codependente tende a carregar todo mundo nas costas, acaba ocorrendo que todos andam conforme seus passos, ele acaba sempre sendo aquele que dá o ritmo da caminhada. Se alguém tentar “descer” o codependente, de tanto “precisar” ser útil acaba pegando-o de volta para suas costas. Como tem lá suas vantagens, tudo volta como era antes. É uma responsabilidade conjunta, mas ninguém tem consciência disso e fiam coniventes nesse “jogo”. A educação tradicional e até religiosa tende a comemorar a bondade e os limites entre bondade e codependência muitas vezes ficam confusos. Também é comum que se confunda na prática individualidade e egoísmo. É claro que há diferença, mas na pressa, na hora de apaziguar os ânimos é comum os adultos aplaudirem a criança que é “boazinha” independente de quanto ela está perdida e fazendo isso para receber atenção. O codependente não raro foi uma criança que se conformou em não ser amada; que nunca se sentiu boa o bastante para “merecer” ser amada. Então ela se contenta em ser necessária, em ser útil. Mais ou menos como se ela pensasse “não gostam de mim, mas vão ter que me engolir porque como é que vão se virar sem minha ajuda?” Não é assim tão simplista essa situação, mas não raro isso passa por essa história. A criança boazinha se torna centro das atenções quando está boazinha e sem perceber vai se tornando uma boazinha compulsiva, vai se viciando em ajudar e não pode viver sem ajudar. Precisa que precisem dela. Ela cheira a problema, se enche de gente problemática, se alimenta de ser útil para todo mundo. Sem isso fica vazia e sem sentido a sua vida. Tem que cuidar da vida de todo mundo porque a sua não existe por si mesma: existe para ajudar. Controlar o ritmo dos passos de todos que estão bem empoleirados nas suas costas. E ai se perder um! Desespera-se. Tem que conseguir colocá-lo novamente nas suas costas, “para ajudá-lo”. Aprendeu isso em casa, com a violência explícita ou camuflada, meio encoberta; aprendeu a não ouvir seu próprio grito, que o abuso é normal dentro de um relacionamento, que é normal viver em função dos outros. Essa pessoa sabe como lidar com necessitados. Mas não sabe como lidar com emancipados, maduros, tranqüilos. Tranquilidade é tédio, sem graça, sem emoções fortes, medo, raiva. Sabe cuidar/controlar. Mas não sabe se deixar ser cuidado, até mesmo quando seu corpo adoece. Ainda assim tenta controlar o corpo, como se isso fosse fraqueza e desmerecimento.





O codependente tem adicção por pessoas. É real esta afirmação? 



Em minhas pesquisas observei que muitos entrevistados que tiveram uma “infância difícil”, nem por isso apresentavam um padrão típico da codependência. Não basta ter acontecido isso ou aquilo para consolidar-se esse padrão: é principalmente o “como” a pessoa percebeu e sentiu (fator tele), e “como” a pessoa deu conta de lidar com isso (fator espontaneidade) que faz com que certa experiência seja armazenada na memória como trauma ou como mais uma experiência de vida. Se for encistada nas redes neuronais como trauma, irá repercutir vida afora negativamente sempre que algum disparador tocar essa ferida (como um corpo estranho no organismo). Mas se for armazenada normalmente cria resiliência, isto é, permite à pessoa crescer cada vez mais forte pelas experiências de vida. O codependente tem cistos na memória que precisam ser tratados. Sem se tratar, ele organiza sua vida centrando-a em torno de quem ele cuida/controla. De alguma forma ele aprendeu, provavelmente na infância, que ele é uma nulidade como ser e precisa ajudar as pessoas para existir; quanto mais ele for útil, maior sua chance de sentirem sua falta, de não o abandonarem. Atitudes de adultos importantes de sua infância contribuíram para que ele se sentisse insignificante por sua existência infantil, não aprendeu valorizar-se por si mesmo de modo equilibrado, tampouco a gostar de sua vida, suas metas. Mas provavelmente foi parentalizado, isto, cuidou dos outros (pais, irmãos, outras pessoas) muito cedo na vida e isso foi sua razão de viver. Continua precisando de metas externas, num altruísmo exagerado, sem conseguir as suas próprias, que provavelmente nem valem a pena. Mas é bonito ajudar os outros e foi elogiado por “parecer gente grande”, foi visto, percebido. Quando ajuda entorpece temporariamente a angústia de sua vida vazia e engana o medo de ser abandonado. Como ocorre com outras drogas ele precisa de mais e mais porque quando o efeito da “droga” passa, ele só tem a si mesmo com seu vazio imenso e a angústia volta a assombrá-lo.Sua busca por necessitados torna-se compulsiva, ele precisa que precisem dele. Se seu protegido cresce ele sem perceber se desespera e por isso não pode legitimar o crescimento do outro. Ele se alegra, mas sem perceber já está tratando-o como “criança”. Se esse escapar ele vai precisar substituí-lo por outro, como talvez já tenha trocado seus pais-crianças por um marido não protetor, por filhos infindavelmente infantilizados e por tantos outros necessitados-encostados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário