segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Depoimentos anônimos de co-dependentes



Como não sou capaz de pensar como um adicto, meu primeiro instinto é reagir às suas escolhas e atitudes com raiva, medo e frustração. Isso coloca meu foco em outra pessoa e em seus problemas, não nos meus próprios. É claro que não tenho problemas, pois não sou um adicto. Sou aquele com todas as respostas e força. Posso controlar qualquer situação e tirar as pessoas de qualquer problema que estejam enfrentando.

Posso comparar esse comportamento com canos furados. Sou capaz de usar fita adesiva para tampar os primeiros vazamentos, mas quando a fita acaba, utilizo qualquer coisa que tenha em mãos. Até que não consiga mais controlar e cobrir todos os furos.

Agora que me vejo afundado n’água até os joelhos, tenho que desistir e admitir que existem problemas que não consigo resolver. Foi, então, que vim para o Nar-Anon. Vim para o programa sem saber o que esperar. O que sabia é que não tinha ideia do que fazer em seguida. Precisava de orientação. Cheguei com toda minha atitude prepotente, achando que poderia consertar qualquer coisa. Trouxe comigo toda a minha bagagem de hábitos e técnicas que tinha certeza, funcionariam em qualquer situação.

Aprendi que minha vida estava um caos e que eu estava apenas tentando sobreviver aos efeitos da adicção de meu ente querido.




Mantenha a mente aberta


Uma das minhas frases favoritas do Livreto Azul do Nar-Anon é “Mantenha a Mente Aberta”; você em breve se sentirá parte do Grupo. Quando vim pela primeira vez ao Nar-Anon, tinha opiniões muito fortes sobre o que o adicto deveria e não deveria fazer. Acreditava também, firmemente, que poderia “fazê-lo parar de usar”. Estava convencida de que, se pudesse dizer aquela palavra ou transmitir aquele pensamento, ele poderia ver o quanto estava ferindo a mim, à nossa família e a si próprio.

Felizmente, mantive a mente aberta e continuei assistindo às reuniões. Ouvindo e participando das reuniões, logo descobri que minha obsessão pelo adicto era um impedimento à minha recuperação e ao meu crescimento. Estava focalizada no adicto, que estava negligenciando a mim mesma.

Uma mente aberta me tornou capaz de mudar o foco. Aprendi sobre a doença da adicção e as ferramentas do programa. Este conhecimento me ajudou a determinar a minha real responsabilidade. Mais importante, aprendi o que posso mudar, com a ajuda do meu Poder Superior, e o que posso mudar.




Tenho 25 anos, e sou noiva de uma dependente. Estamos juntos há mais de 5 anos e desde o começo nós já tinhamos contato com maconha e cocaína.. mas isso tomou proporções muito grandes. Eu resolvi parar porque sempre senti muita culpa, principalmente por pensar em minha mãe, que sempre lutou tanto contra o meu pai, também usuário de cocaína e alcool, quanto para me dar um bom estudo e uma vida digna. Consegui parar sozinha, depois de 1 ano de tentativas.
Para conseguir, o mais importante é você olhar para dentro de você mesmo, e botar numa balança o certo e o errado. Pensar: o que eu prefiro, acordar bem amanhã, fazer um esporte, conseguir ter uma conversa legal com minha família, conseguir produzir qualquer coisa (que seja pintar, que seja ler um livro, ver amigos legais, cuidar da sua casa, de você mesmo...), ou acordar naquela depressão que consome até a alma e me deixa 3 dias mal? Prefiro ser classificado naquelas estatísticas do jornal sobre usuários de droga, ou ser estatítica de alguma coisa boa? Prefiro produzir, ou passar mais um dia sem fazer nada, sendo nada?
Eu também pensava muito no fato de a droga estar totalmente ligada a violência, marginalização...Nós reclamamos tanto de violência, mas o dinheiro das drogas é que financia essas barbaridades... e o consumo de drogas leva as pessoas a fazem barbaridades!
Temos que buscar assuntos diretos e indiretos ligados ao nosso consumo de drogas, para termos força e nos libertarmos.
É Difícil? Muito.. mas não é impossível.
E não tem sensação melhor nesse mundo do que acordar as 6:30 da manhã para correr, ou sentar com minha mãe e dar muita risada, passear com amigos que tenham interesses totalmente diferentes dos antigos...
Procurem mudar a rotina, descubram coisas novas, mudem de amigos (por mais legais que sejam, os que tem algum tipo de vício não fazem bem para a gente!), e pensem se a vida está boa assim; se não estiver, só cabe a você tentar mudá-la...
Bem, e quanto a meu noivo.. infelizmente continua usando desenfreadamente, dizendo que só faz uso social...  a família ignora o fato porque eles são perfeitos demais para terem problemas... eu continuo tentando ajuda-lo, mas ele ainda não quer.. paciência.. quem sabe o dia que ele "acordar", eu ainda esteja ao seu lado...



Perdoar: um ato de amor


Costumava acreditar que perdão era algo que eu fazia por outra pessoa. Na verdade, preciso perdoar por minha causa mesmo. Minha antiga percepção do que é perdoar, era que esqueceria uma ofensa dolorosa feita pelo adicto. Isto me deixava exposta a ser magoada novamente. Então, o que significa dizer “Eu te perdoo”? Estarei liberando essa pessoa de alguma dívida? Estarei apenas facilitando as coisas em troca de autossatisfação?

Quando tenho a vontade de dizer “Você não me deve nada”, posso perdoar e esquecer os resentimentos que fazer doente. Posso abandonar a montanha russa que me leva para cima e para baixo. Sem perdão, ficam a versão, o ressentimento, a culpa e a vergonha. Posso perdoar o adicto e a mim mesma.

Se ficar agarrada aos meus ressentimentos, eles me manterão prisioneira. Podemos comparar isso a uma armadilha para macacos. O macaco vê um doce dentro de um buraco estreito, então, enfia a mão e agarra o doce. Se não soltá-lo, não consegue tirar a mão. Ele está preso, como estou quando não há o verdadeiro perdão.




Tolerância


Dentre as minhas poucas virtudes, a tolerância passava bem distante. Eu era um intolerante. Não somente defendia, de forma intransigente, as minhas ideias, mas também tentava lhes conferir supremacia.

O programa Nar-Anon me ajudou a mudar o meu caráter. Aos poucos fui deixando de suprimir as ideias dos outros, mesmo que as rejeitasse. Descobri a diferença que existe entre os meus pensamentos e as concepções dos outros. O reconhecimento dessa diferença e o apoio que a ela passei a dar vieram a constituir a minha tolerância.

Hoje sei que sou uma pessoa tolerante porque ampliei meus interesses próprios, de modo a me tornar capaz de reconhecer os interesses dos outros.

Passei a observar, ouvir e comparar outras ideias com as minhas próprias. Agora posso reconhecer o direito de outra pessoa manifestar sua opinião, mesmo que eu não concorde com ela.




Desligamento


Quando cheguei ao Nar-Anon, eu não percebia que era um codependente. Isso tornou o desligamento, que me foi sugerido, mais trágico do que poderia ser.

Como toda pessoa adoecida, eu não sabia como ajudar a mim mesmo. Considerava o desligamento, enquanto mudança necessária para resolver tantas crises, fosse algo traumático, mutilador da minha família. Para mim, desligamento significava romper, esquecer e jogar tudo pela janela.

Levei algum tempo para entender que colocar fim a laços emocionais não é necessariamente cortá-los. As ligações com o adicto podem prosseguir e tornarem-se menos densas, prolongando-se e se aprofundando ao mesmo tempo.

Agora tenho consciência de que qualquer conexão pode ser rompida quando a minha sobrevivência está ameaçada. O programa de recuperação que a irmandade me sugere, capacitou-me a fazer mudanças nesse sentido, aprofundando a minha satisfação emocional e espiritual. Comprometi-me novamente com a corrente da vida, tomando distância, mudando conexões, sem a necessidade de apagar alguém que amo.






5 comentários:

  1. a codependencia e ador de nao se enxergar a angustia de desaparecer e atolerancia nao funcional e aincapacidade de dizer nao e a escravizalizaçao pela culpa a vergonha pela nossa fraquesa trantorno que nos deixa incapazes de comer ler ouvvir uma musica sem incluie o outro

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  2. acordar viver e ate dormir sem o outro quando somos dependentes emocional parece que estamos a desaparecer . alimentamos nossa carencia com a fraquesa do outro

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  3. ser codependente e viver acorrentado pela culpa ser codependente euma dança constante com a carencia e a infeliz fuga de si mesmo

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  4. todos os dias estou aprendendo que devo gerenciar o modo como eu amo tenho consciencia que meu amor e patologico e vejo as situaçoes distorcidas . Fabio

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